Busco neste texto uma reflexão dentro de nossa modalidade, triathlon, na qual atuo como treinador por mais de 25 anos.
Quando a modalidade surgiu na década de 70 em San Diego (EUA), a proposta era inicialmente uma busca de alternar atividades aeróbias nas férias de um clube de atletismo para manutenção da condição física.

A proposta cresceu, os “guarda-vidas” do local participavam com os atletas do clube, desafios eram lançados ao longo do ano e criou-se a disputa, formalizada em 1500m de natação, 40Km ciclismo e 10 Km de corrida com uma federação estruturada em 1982.

O esporte foi apresentado nos Jogos Olímpicos de Sydney 2000 e a partir daí desenvolve-se o processo já de um esporte formal e reconhecido mundialmente.

Na mesma época, década de 70, surge o Ironman como um desafio no Havaí. A busca era pelo “atleta mais completo”, sendo assim, o desafio agrupava a 3 maiores provas de “endurance” do local. A travessia da Ilha de Kailua com 3,8Km, prova de natação, a volta da Ilha de Oahu com 180Km, prova de ciclismo e a maratona internacional do Havaí, com 42Km, prova de corrida.

Essas são histórias facilmente em várias fontes, porém, há registros de uma prova na França em 1920 que já integrava as três modalidades. A prova se chamava “Les Trois esportes”, relatada pelo historiador Scott Tinley, que foi um grande triathleta de endurance.

Bem, minha pretensão não é discutir a história, mas, discutir um assunto um pouco mais complexo, a separação do Ironman da modalidade triathlon e a migração precoce para provas longas.

Talvez o contexto histórico nos ajude entender um pouco desta “divisão” como relatado no surgimento das modalidades, mas, a verdade é que uma prova de Ironman, a meu ver, é uma prova de triathlon longo e não uma modalidade isolada.

Por várias vezes, em conversas informais, já escutei atletas respondendo a questões sobre esportes, dizendo que praticavam Ironman e não triathlon, como se o primeiro tivesse um valor maior. Não questiono preferências nem coloco um acima do outro, até porque, como treinador atendo a todo o tipo de público, porém, julgo que haja uma coerência e uma progressão necessária para que cada etapa seja cumprida de forma saudável.

A marca Ironman é muito forte e difundida, tanto é que pesquisas recentes apontam ser a 2° imagem mais tatuada no mundo, perdendo somente para a tradicional Harley Davidson. Acredito que, por se tratar de uma “tribo” específica de uma modalidade esportiva esta comparação se torna ainda mais relevante. Ironman virou uma paixão.

A realidade está apresentada e a prova de Ironman está em todo o planeta. Acredito que essa grande vitrine estimule os atletas a buscarem este desafio, o que não é um problema na minha visão. O problema em si é a forma que se busca chegar neste desafio e a hierarquia que se coloca nas provas de triathlon.

Não acredito que seja um caminho obrigatório participar de provas de Sprint Triathlon (750m/20Km/5Km) ou Standard (1500m/40Km/10Km), somente como passagem para um desafio maior. A prova de Standard, por sinal,  era chamada de Triathlon Olímpico justamente porque que é, até hoje, a distância que representa a modalidade nos jogos.

A sensação que percebo na grande maioria dos atletas é que, se você não treina ou participa de Ironman não é considerado um triatleta.

Particularmente acredito que muitos atletas podem viver dentro deste esporte sem se quer chegar perto de um Ironman e sentindo-se feliz com as provas mais curtas, basta entender seu potencial e treinar para executá-lo com saúde e prazer.

Bem, minha preocupação maior não é sobre a prova escolhida, Sprint, Standard ou triathlon longo, mas, a progressão dos atletas para as provas longas precocemente, o que a meu ver precisa de tempo para acontecer.

Infelizmente não é incomum recebermos atletas em nossa assessoria, sem nenhuma experiência na modalidade e as vezes sem bicicleta, mas, com a inscrição do Ironman feita.        Acredito muito que, esta situação, devemos combater com muita força, pois, a discussão não é se é possível preparar um atleta sem experiência para um desafio destes em menos de 1 ano, mas, se isso é adequado, saudável e se realmente trará a satisfação que este atleta busca.

Se este for o seu caso, saiba que não há problema em você buscar um Ironman como único desafio de sua vida e depois não participar de mais nenhuma prova da modalidade, mas saiba que é necessário um caminho para que isso aconteça com saúde e lhe dando a satisfação do desafio.

Não gosto de estipular um tempo, pois, acho que isso varia muito de pessoa para pessoa, mas, com certeza, um ano, para quem está começando no esporte, é muito pouco.

Outra situação comum são atletas com uma ou duas provas de Sprint, mas, já com um histórico de corridas em ½ maratonas, partirem rapidamente para uma prova de 70.3 ou ½ Ironman, alegando que correr 5Km é muito pouco.

Acredito que a reflexão deva ser a seguinte: se você é um atleta amador ou recreacional, e corre uma ½ maratona perto de 2h, fará uma prova de 1900m / 90km / 21Km para mais de 6h, ou seja, ficará 3 vezes mais em atividade do que na sua ½ maratona.

Uma prova de Standard, para o mesmo atleta, duraria entre 2h30min e 3h, ou seja, mais tempo do que faria em sua ½ maratona.

A forma de pensar deve ser quanto tempo vou ficar em atividade e o que preciso para me preparar para este desafio. Não é porque corro provas de 21Km que estou apto a fazer um 70.3, são desafios distintos, com durações distintas e preparações distintas.

Minha grande preocupação tem sido ver atletas do triathlon muito autônomos, correndo contra o tempo para alcançar logo o desafio de uma prova mais longa. Ao mesmo tempo vejo que minha preocupação não é isolada, pois, vários colegas treinadores comentam o mesmo fenômeno, porém, nossa opinião, direcionamento e orientação não tem surtido muito efeito.

Há uma questão relacionada a saúde quando fazemos uma progressão para uma prova longa em um tempo inadequado e há também a questão técnica a ser aprendida e maturada em cada modalidade. Não há como acelerar o processo somente para cumprir o desafio e abrir mão da saúde.

Caros atletas, conversem mais com seus treinadores e tentem entender que para tudo há um processo. Não é porque não fará seu triathlon longo, logo no próximo ano, que estará “perdendo tempo” na modalidade. Conquiste degrau por degrau, mature cada fase, aprenda e deixe seu corpo se adaptar as novas distâncias e desafios.

Garanto que quando conquistar um desafio mais longo, estando mais preparado, a satisfação também será maior. Boa sorte em sua preparação e apoie-se nos profissionais que o cercam.

Prof. Leandro Abete
Ztrack

Foto: 18 de fevereiro de 1978, 15 competidores enfrentam em Waikiki Beach, Honolulu, Hawaii, o primeiro desafio IRONMAN. - Divulgação, reprodução da internet